Notas de Aula

A dialética do Uno e do Múltiplo

Coerência é relação, unidade de uma multiplicidade ou a multiplicidade em unidade.

Há um modo mais e outro menos profundo de compreender a mútua imbricação dos conceitos de unidade e multiplicidade na categoria sintética de coerência.

Na leitura, por assim dizer, menos profunda estamos apenas destacando a relação direta que há entre os conceitos de coerência e configuração.

Pense em dois ou mais indivíduos atuando juntos, configurando um grupo ou um pequeno sistema social.

Eventos relacionam-se uns com os outros. A presença de dois ou mais eventos faz emergir a multiplicidade, sua relação é a unidade. Eventos figuram juntos, em configurações.

Por isso dizemos que a ontologia dialética é uma ontologia relacional.

Mas o significado mais profundo desta dialética entre multiplicidade e unidade pode-se encontrar no diálogo Filebo, do Platão tardio, onde se lê: “de Uno e Múltiplo seja feito tudo o que se diz que é, e contenha em si, associados, peras e apeiron“.

Deixo de propósito não traduzidos os termos gregos ‘peras’ e ‘apeiron’, que são vertidos normalmente por ‘limite’ e ‘ilimitado’. Mas há também a versão de Schleiermacher: ‘determinado’ (determinação: Bestimmung) e ‘indeterminado’ (indeterminação: Unbestimmtheit) ou ‘subdeterminado’, como prefiro.

A filosofia tardia de Platão associa peras, o Uno, a ‘determinação’, e apeiron, o Múltiplo, a ‘subdeterminação’. Buscando explicitar o significado pleno desta terminologia, podemos associar ao Uno as categorias de identidade, invariância e determinação, e ao Múltiplo as categorias de diferença, variação e subdeterminação.

E concluímos: tudo o que há e pode existir é manifestação da Ideia da Coerência, e a coerência pode se dar em graus variados, desde a manifestação extrema do predomínio do Uno sobre o Múltiplo (a máxima ordem) até o seu reverso, o predomínio máximo do Múltiplo sobre o Uno (o quase puro caos).

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