Notas de Aula

O que vem a ser o espaço lógico? Um experimento de pensamento.

A ontologia dialética é uma ontologia relacional: “só o que está ‘em relação com’ permanece determinado” ou, o que é mesmo, “só o coerente permanece determinado”; esta a lei universalíssima que inere a tudo o que há ou pode haver, a razão que pervade todo o ser.

Existir não é propriamente ser, mas estar no processo tenso de determinação que visa a coerência e, quando não a efetiva, se desfaz ou perde-se na incoerência. Coerência é o alvo imanente, o atrator, de todo o processo de determinação, mas há múltiplos, potencialmente infinitos modos de realizá-la, entre os extremos do predomínio máximo do Uno sobre o Múltiplo, ou vice-versa.

Enquanto se dá na face extrema do predomínio máximo do Uno e de suas notas características –  identidade, invariância e determinação – sobre o Múltiplo, a coerência se manifesta como ordem;  enquanto se dá na face oposta do extremo predomínio do Múltiplo e de suas notas –  diferença, variação e subdeterminação – sobre o Uno, a coerência se manifesta como caos.

Em todos os casos, o existente se dá em uma trama relacional com outro(s) existente(s), mesmo que de modo radicalmente instável e fugidio, quer dizer, tudo se dá ou se manifesta em ou como uma configuração. Configurações reais são redes; configurações abstraídas do tempo são grafos (na terminologia de Barabási).

Façamos agora um inusitado experimento de pensamento. Imagine-se situado no ponto de equilíbrio entre os extremos do máximo predomínio do Uno sobre o Múltiplo, e vice-versa, quer dizer, na companhia daquele enlaçamento específico de existentes que denomino a configuração de Leibniz (na figura abaixo, o ponto no extremo inferior da circunferência (CL)), e embarcando em uma viagem na direção da máxima ordem (na figura abaixo, o movimento para a esquerda, a partir da configuração de Leibniz), enquanto um colega seu de aventura segue a direção exatamente contrária, visando não a máxima ordem, mas o máximo caos. No decorrer da viagem você estaria se aproximando da configuração de Parmênides, enquanto seu colega, para desespero próprio – ou não? – estaria cada vez mais perto da configuração de Górgias.

Onde terminaria esta viagem? Aparentemente em lugar nenhum, ou melhor, em um afastamento cada vez maior entre os dois viajantes. Mas não é isso o que de fato ocorreria. Vamos chegar bem perto da configuração de Górgias, e avaliar aonde este movimento de aproximação contínua nos levaria. Ora, a configuração de Górgias, enquanto se manifesta como o máximo predomínio do Múltiplo sobre o Uno, não tem nenhuma determinação estável, a não ser a sua própria autorreferência como configuração – quer dizer, em seu extremo ela reverte na quase pura identidade da configuração de Parmênides.

Já a configuração que se manifesta no extremo oposto, a configuração de Parmênides, em sua pura autorreferência, é aparentemente o que há de mais estável, mas, de fato, justo em sua quase invariância plena, é o mais aberto a colapsos potenciais e, portanto, o mais instável, porque incompatível com qualquer outra das infinitas reconfigurações possíveis permitidas pela própria lei universal da coerência; em sua face extrema, a configuração de Parmênides reverte na configuração de Górgias. Ambas as manifestações opostas da coerência revertem-se, em seus extremos, uma na outra e, em sua oscilação contínua, coincidem.

Seguindo em suas viagens antagônicas, visando os extremos opostos da ordem e do caos, você e seu amigo terminariam se reecontrando na configuração de Cusanus (no ponto superior da circunferência).

Neste breve experimento de pensamento delimitamos o mapa do espaço lógico evolutivo, o campo de todos os pensamentos possíveis e todas as formas possíveis de existência.

espaço lógico evolutivo

◇ Este texto é um excerto de E. Luft: “Platão ou platonismo. Um tópico em dialética descendente

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