Projeto de sistema

1. A ontologia dialética pode ser alcançada por duas vias, à primeira vista antagônicas, mas na verdade trajetórias complementares de um e o mesmo movimento de deflação da ontologia clássica.

2. A via ascendente procura realizar o potencial de autotranscendência das ciências particulares, sua capacidade de expandir-se para além de seus limites e dialogar com as outras áreas do saber.

3. A via descendente busca realizar o potencial de imanência da filosofia, sua capacidade de articulação com as ciências particulares.

4. Esta última via, eminentemente filosófica, se subdivide em duas ramificações: ela busca, por um lado, acompanhar a autocrítica de Platão à teoria das ideias e suas conseqüências deflacionárias para o pensamento tardio exposto no diálogo Filebo.

5. Por outro lado, ela mostra a influência exercida pela teoria das ideias de Platão sobre o Idealismo Alemão  e procura explicitar as conseqüências deflacionárias da crítica imanente à filosofia hegeliana.

6. As duas ramificações da via descendente desembocam, por fim, na articulação com as ciências particulares, especialmente com a teoria de redes e com a teoria dos sistemas adaptativos complexos.

7. A resposta às objeções à filosofia hegeliana exige o abandono da teleologia do incondicionado que inere ao Conceito, a estrutura lógica do sistema hegeliano. A sua recusa exigirá a reestruturação global do sistema.

8. A partir da radicalização do projeto proposto por Cirne-Lima em resposta àquelas críticas, e em diálogo com a dialética do Uno e do Múltiplo aventada pelo Platão tardio, a categoria de Ideia é agora relida como Ideia da Coerência.

9. A ontologia dialética desemboca, como em Hegel, em uma ontologia relacional e holística: “só o coerente permanece determinado”; todavia, e agora contra Hegel, há múltiplos, potencialmente infinitos modos de realizar a coerência.

10. A coerência pode se dar nos extremos do predomínio máximo do Uno sobre o Múltiplo, ou vice-versa. O envolvimento de todos os modos possíveis de realização da dialética do Uno e do Múltiplo na Ideia da Coerência, enquanto lei operante de todos os processos em rede, constitui o espaço lógico dinâmico.

11. A assimetria típica do espaço lógico dinâmico, marca diferenciadora em relação às versões do espaço lógico na filosofia analítica (cf. Wittgenstein), explica a tendência do devir natural a mover-se próximo da Configuração de Leibniz.

12. Esta reconstrução crítica da ontologia dialética acarreta, ao menos, as seguintes mudanças estruturais no sistema de filosofia:

a) Abandono do projeto de fundamentação última do conhecimento (colapso do dualismo entre Fenomenologia do Espírito e Lógica), e defesa de um falibilismo generalizado;

b) Transformação da ontologia inflacionária do Conceito na ontologia deflacionária da Ideia da Coerência ou, mais simplesmente, na ontologia dialética;

c) Colapso do dualismo entre Lógica e Filosofia do Real, premissa básica do idealismo objetivo hegeliano, e defesa do idealismo evolutivo.